CORPOS NEGLIGENCIADOS E TERRITÓRIOS ESTIGMATIZADOS: A BIOPOLÍTICA DA HANSENÍASE NO SEMIÁRIDO BRASILEIRO SOB A ÓTICA DA VULNERABILIDADE SOCIAL
DOI:
https://doi.org/10.52832/jesh.v6i2.677Palavras-chave:
Desigualdades em Saúde, Exclusão Social, Incapacidade Física, Saúde Rural, Vigilância em SaúdeResumo
A hanseníase permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente no Semiárido, onde sua persistência reflete não apenas a transmissão biológica, mas também desigualdades estruturais. Apesar da disponibilidade da poliquimioterapia gratuita, a doença continua afetando populações socialmente vulneráveis, evidenciando um paradoxo entre capacidade terapêutica e permanência epidemiológica. Este estudo tem como objetivo analisar a hanseníase no Semiárido brasileiro como um fenômeno mediado pela biopolítica, marcado por desigualdade territorial, estigma e limitações no acesso aos serviços de saúde. Foi realizada uma revisão integrativa da literatura, com estudos publicados entre 2019 e 2026, selecionados por meio de busca sistemática, triagem e avaliação crítica. A síntese integrou abordagens epidemiológicas, sociais e organizacionais do sistema de saúde. Os resultados indicam que a hanseníase se concentra em territórios vulneráveis, onde a dispersão rural e a fragilidade da rede assistencial dificultam o diagnóstico precoce. A elevada frequência de incapacidades físicas no momento do diagnóstico evidencia atrasos estruturais, enquanto falhas na atenção primária e na vigilância de contatos sustentam a transmissão. O estigma e o silêncio institucional reforçam o atraso no cuidado e a exclusão social. A discussão demonstra que a persistência da doença está inserida em um nexo de vulnerabilidade, no qual território, acesso e condições sociais produzem desfechos desiguais. A cura clínica não elimina as consequências sociais da doença. Conclui-se que a hanseníase no Semiárido deve ser compreendida como uma questão de injustiça social, exigindo equidade territorial, vigilância ativa e políticas de reintegração social.
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